-Inspirado na música Ready To Go da Julie Delpy-
A constância do inconstante
Há algo no ar que me sufoca, que me estagna no lugar. O trânsito insuportável, a falta de educação nossa de cada dia. A paciência se torna uma virtude admirável de se manter. Preciso sair, preciso gritar!
Preciso ir á Pasárgada.
Aquela do poema do Bandeira, mas trocaria as amantes por uma boa conversa num café qualquer ou por bons amigos para se ter para vida toda.
Faz algum tempo me programo para ir à Europa, e agora, tudo se fecha para esse momento, mesmo com o homem que sempre procurei, aparecer agora quando tenho passagem e curso pagos em mãos.
Já acordou no silêncio da manhã em que você, vira para o lado e o sorriso se esboça à visão?
Não sinto mais a necessidade de pose, mas de bem querer, indiferente do rumo que a vida levará ambos.
Queria que isso fosse mais forte, mas não é… Não o bastante.
Por favor, não se zangue, mas tenho que ir…
Um último beijo de adeus em seu ombro esquerdo e levemente sardento. São dias na praia de nosso verão. De maneira tão natural, amizade tornou-se desejo, sem fogos de artifício, sem grandes revelações, só uma sequência de eventos lógicos.
No surprises.
Por isso, vou me embora, ver se encontro um rei ou rainha para ser amiga. Para ser livre, me ser.
Meus pais, tão doces, tão prestativos, tão práticos.
Estudar em bom colégio, viver sem vícios, amigos confiáveis, boa aluna, por que abandonar a faculdade agora?
- Faça uma pós no exterior, mais tarde! – me diziam, mas tenho pressa.
Entendo o bem querer da ordem correta da vida profissional, afinal, foram criados para acreditar nela. Sem pulos ou paradas abruptas.
Vou sentir falta de seus sermões, gritos, conselhos e risadas a cada conquista. Mas, preciso errar nas minhas próprias pernas e sumir para crescer.
Nunca lhes disse, mas a inconstância da vida me é constante. Espero que entendam quando voltar, e que tenham guardado consigo uma experiência similar e se orgulhem.
“Senhores e senhoras passageiros do vôo 1532 da Air France com destino a Paris, por favor, se dirigir ao portão 53B com passaporte e cartão de embarque em mãos”
Amigos, me chamam!
Queria lhes agradecer pela companhia e aos que vêm, os brindo com o melhor da região!
Quem e o que me darão para relembrar pela vida, não sei ao certo… Mas o sorriso se fixará a sua lembrança.
Alex Supertramp disse a felicidade só é real quando compartilhada e acredito nisso, cegamente.
O avião começa a taxiar pela pista, enquanto meu estomago se aperta de antecipação gostosa.
O avião se desprendendo do terra abaixo… Sou a única sorrindo na caixa gigante pressurizada?
-Está indo para casa? – pergunta com leve sotaque a senhora do meu lado.
-Não… – digo com um sorriso sonhador – para campos de lavanda…
A senhora me dá um olhar curioso e não pergunta mais nada o resto do vôo.
Nem sempre se está pronto para entender ou ir…
Ao aterrizarmos, a senhora fala comigo.
-Espero que encontre o que deseja…
Desta vez, eu dou um sorriso de incompreensão.
-Irá voltar?
Ela me leu por uma frase! Ela me entendeu e aguarda minha resposta.
Quando sobra nós duas e meu silêncio reverente se mantem, ela me pasma.
-Estou voltando agora. Boa sorte, não vai se arrepender.
Com um sorriso e meus pés em terra estranha, estou pronta.